Artigo do Dr. Edmond Barras - Os dados da saúde por si só não são úteis, é preciso saber como extrair o seu valor!

Artigo do Dr. Edmond Barras - Os dados da saúde por si só não são úteis, é preciso saber como extrair o seu valor!

A insanidade é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes. Na área da saúde a loucura consiste em analisar os mesmos dados e chegar a conclusões erradas. A proteção da confidencialidade do paciente, regras regulatórias e de propriedade levam a importantes restrições sobre os dados da saúde. Há uma enormidade de dados lançados constantemente achando que com isso poderemos resolver todos os nossos problemas. Entretanto na prática isso não acontece. “Os dados são a nova era do petróleo”; é uma metáfora válida sob certos aspectos mas não em outros. Usamos dados para alimentar as transformações na área da saúde da mesma forma que usamos combustível para movimentar máquinas. Da mesma forma que o petróleo fez grandes fortunas para Rockfellers, Gattys e Mellions, coletar e controlar dados está fazendo o mesmo para Zuckerbergs, Bezos e Pages. Mas o petróleo é um bem finito; reservas gigantescas poderão acabar. Ele só pode ser usado uma vez, perdendo seu valor; não há como reciclá-lo. Ao contrário, os dados são coletados universalmente, estão crescendo em abundância, na verdade estamos nos afogando neles, e podemos utilizá-los inúmeras vezes. Aí está outra diferença: ao contrário do barril de petróleo, uma determinada quantidade de dados digitais não tem valor inerente; para gerar valor é necessário que se possam tirar conclusões a partir deles. A comparação do petróleo com dados da saúde estimula as pessoas a armazená-los em “reservatórios”. Criar valor a partir de dados da saúde não é uma simples questão de consumo. Os dados devem ser organizados e gerenciados através de um processo complexo que requer analises que tenham um objetivo específico. Para maior eficácia os dados devem ser compartilhados entre pacientes, hospitais, registros eletrônicos de saúde, clinicas e para todo o ecossistema moderno de saúde. Mas essa interação pode ser perigosa. Armazenar ou movimentar dados pode levar a certas vulnerabilidades. Essas vulnerabilidades têm um potencial de exposição a acesso não autorizado ou roubo de dados que podem servir para fins nefastos.

Um relatório divulgado em 2017 nos Estados Unidos mostrou que 26% dos consumidores de saúde tiveram informações médicas pessoais roubadas de sistemas de informações. Outra pesquisa revelou que o custo do provedor de saúde em casos de violação de dados chega a 408 dólares por caso. Os profissionais de saúde encontram-se encurralados entre a responsabilidade do acesso e a proteção dos dados, tentando fazer com que eles fluam facilmente e em segurança em um terreno movediço.

Todos sonham em colher os frutos dos benefícios prometidos pela informática. Mas não podemos mais pensar em termos do século 20. É preciso que se tente algo novo para se conseguir resultados diferentes. Nas décadas de 80 e 90 havia o temor de que os arquivos pudessem se perder em caso de incêndio, roubo ou outra calamidade. Hoje, o armazenamento de dados na nuvem introduziu outras ameaças quanto à segurança e privacidade, mas também abriu expectativas antes inimagináveis. Parece que estamos presos nessa intersecção entre risco e potencial. Embora haja mérito em estabelecer um conjunto de padrões e procedimentos operacionais, seja num computador ou na nuvem, a grande barreira para o progresso é a nossa própria visão limitada para o uso definitivo e concreto desses dados. Não se deve abandonar as diretrizes de segurança, ética e rigor científico. Mas os dados são uma dádiva e devemos ser capazes de considerar o seu potencial para muitas perspectivas. Novas oportunidades deverão desafiar os dogmas de gerenciamento de dados de saúde e criar espaço para novas ideias. Da mesma forma, alterar nossa abordagem aos dados de saúde pode transformar radicalmente a maneira como podemos avançar no atendimento ao paciente. Embora o nosso sistema atual de avaliações clínicas seja bem eficiente, ele é caro, demorado e com objetivos limitados. A informática pode levar a diferentes métodos que explorem capacidades modernas e ofereçam novas esperanças. Atualmente os médicos gastam metade do seu tempo profissional digitando, clicando e editando registros eletrônicos de saúde. Ao invés de agir como ferramentas facilitadoras e altamente funcionais, os prontuários eletrônicos se tornaram uma parte assustadora do fluxo de trabalho do médico. Isso é uma contradição porque os prontuários eletrônicos devem ser um recurso que possa ser usado conjuntamente com sistemas avançados de inteligência artificial e que extraiam informações relevantes para um determinado paciente ou diagnóstico. Fornecer aos médicos os dados certos nos momentos certos é essencial para oferecer aos pacientes os cuidados corretos para melhorar a sua saúde.

O principal objetivo e benefício em repensar as possibilidades de gerenciamento de dados é transformar radicalmente nossa abordagem em estudos clínicos, consequentemente melhorar a qualidade de cuidados fornecidos aos nossos pacientes. Sabemos que dados podem gerar mais valor; a nossa responsabilidade é encontrar maneiras melhores de obtê-lo. Qual a consequência? Ineficiência, sobrecarga, recursos perdidos e arquivos de informações digitalizadas sem sentido que nunca serão colocados em prática. As inundações desnecessárias de dados da saúde não ajudam em nada os médicos a melhorarem a eficiência e a qualidade do atendimento e menos ainda ajudam pacientes a cuidarem melhor de si mesmos.

Dr. EDMOND BARRAS formou-se em 1973 pela Faculdade de Medicina da USP. Foi residente-estrangeiro do Hopitaux de Paris em 1976 e 1977 e médico assistente no Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris. Em 1978, fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral da Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje, além de ter participado de congressos no Brasil e exterior e ter inúmeros estudos e trabalhos publicados, sempre relacionados à coluna vertebral. É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

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