Artigo do Dr. Edmond Barras - Senhores passageiros, há algum médico a bordo?

Artigo do Dr. Edmond Barras - Senhores passageiros, há algum médico a bordo?

É muito provável que alguns leitores já tenham ouvido esta frase durante o vôo, e apesar da serenidade da voz da comissária, quase sempre causa apreensão, curiosidade e em alguns casos um certo alvoroço. Emergências médicas em vôo são comuns e acontecem em um ambiente complexo e com recursos limitados. Estima-se que essas emergências ocorram em um ano a cada 600 vôos, ou seja 24 a 130 para cada milhão de passageiros ao se levar em conta que 4 bilhões de passageiros viajam em linhas comerciais anualmente, é provável que diariamente aconteçam entre 260 e 1.420 emergências médicas. As emergências médicas mais comuns são desmaios (ou quase desmaios) em 32,7%, por problemas gastro-intestinais em 14,8%, dificuldades respiratórias em 10,1%, emergências obstétricas em 0,7% e paradas cardio-respiratórias em 0,2%.

Prestar assistência médica a 35 mil pés de altitude, com recursos médicos limitados, muitas vezes a horas de distância de um suporte médico em solo, cria um desafio desconhecido para muitos profissionais da saúde. De um modo geral as companhias aéreas dispõem de um kit para emergências que pode variar conforme a legislação do país ao qual pertencem. A americana Federal Aviation administration recomenda como requisitos obrigatórios desfibrilador cardíaco, estetoscópio, esfigmomanometro, equipamentos para acesso venoso, luvas de procedimento, material para curativo, assim como certos medicamentos para dores, alergias, náuseas, espasmos brônquico, hipoglicemia, desidratação e para algumas condições cardíacas. Também dispõe de garrafas de oxigênio portáteis na eventualidade de precisar acudir um passageiro com um fluxo baixo de O2.

Em altitude de cruzeiro a cerca de 35 mil pés, a pressurização da aeronave equivale a uma altitude entre 5 e 8 mil pés. Essa redução de pressão faz com que nas cavidades naturais que contém ar (por exemplo, seios da face, ouvido médio), este sofra uma expansão de até 30% causando desconforto. essa variação passa a ser preocupante em passageiros portadores de insuficiência respiratória, hipóxia, portadores de pneumotórax ou se recentemente submetidos a cirurgia abdominal, ocular ou intracraniana. Infecções de vias aéreas superiores também tornam o passageiro mais susceptível a desconfortos respiratórios. além disso, ficar sentado por um período prolongado diminui o fluxo do retorno venosos dos membros inferiores, provoca uma ativação plaquetária, o que explica a frequência elevada de trombo-embolismo em viagens aéreas.Os sintomas de trombose ou embolia pulmonar em geral ocorrem horas ou dias após a viagem aérea, mas podem ocorrer durante vôos de longa duração ou durante uma sucessão de múltiplos vôos. O ar da cabine, extraído de um ambiente extremamente seco é pressurizado e pode contribuir para desidratação em alguns casos. A reciclagem do ar também expõe os passageiros a produtos alérgenos, da mesma forma que o ambiente fechado facilita a transmissão de doenças contagiantes pelo ar.

Qual deve ser a atitude do médico que, quando passageiro, é solicitado para auxiliar uma emergência médica durante o vôo comercial? Nesses casos, ele é definido como voluntário médico. Em geral a sua principal função é coletar informações, auxiliar o passageiro doente ou ferido, auxiliar nas comunicações com o suporte médico em solo e eventualmente administrar medicamentos ou realizar procedimentos. A chave para o bom desempenho é que todos os envolvidos contribuam com os seus conhecimentos, como parte de uma equipe colaborativa, com o único objetivo de garantir o melhor cuidado ao passageiro vítima de emergência médica em vôo.

Existem algumas implicações legais e éticas para o voluntário médico. essas implicações são regidas por uma combinação complexa de leis internacionais incluídas nas convenções de Varsóvia, Montreal e Tóquio, mas podem variar conforme a nacionalidade da companhia aérea. Por exemplo, nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Cingapura não há obrigação por parte de um médico que não esteja em serviço atender a uma emergência de vôo. Por outro lado, a Austrália e a maioria dos países da Europa exigem que os médicos preste essas assistência e é obrigatório por lei. Independentemente das leis, os médicos têm o dever ético de agir. Nos EUA existe uma Lei de Assistência Médica de Aviação(também chamada de Lei do Bom Samaritano) que protege os médicos que prestam assistência de eventuais responsabilidades, exceto em casos de negligência grave ou conduta dolosa.

Quando solicitados pela tripulação, os profissionais médicos devem se identificar e confirmar a sua prática clínica. Em seguida deve fazer uma avaliação dos sintomas, principalmente dos de alto risco, com dor torácica, falta de ar, déficit neurológico, verificar os sinais vitais e o nível de consciência. Os comissários de borde devem disponibilizar o kit de emergência e, se necessário, oxigênio. As informações coletadas pelo voluntário médico são transmitidas pelo comandante para equipe médica em solo, que a companhia aérea é obrigada a manter disponível. a maior parte das intercorrências felizmente são resolvidas durante o vôo, tais como desmaios, falta de ar, sintomas gastro-intestinais, distúrbios cardio-vasculares ou distúrbios psiquiátricos que podem variar desde uma crise de ansiedade até um surto psicótico. Convulsões são raras e em geral o próprio passageiro já possui a medicação. Traumas também podem ocorrer como consequência de quedas ou queda de bagagem dos compartimentos. em situações de maior gravidade, como paradas cardio-respiratórias, emergências obstétricas, sintomas cardíacos graves e acidente vascular cerebral, pode haver a necessidade de um pouso fora da rota prevista, para um aeroporto mais próximo. Trata-se de uma decisão crucial pois esse desvio implica em gastos importantes que podem variar de 20 mil a 725 mil dólares, além dos custos indiretos com por exemplo redirecionar os demais passageiros. Se o desvio tiver que se dar pouco tempo após a decolagem é necessário despejar na atmosfera parte do combustível para um pouso mais seguro. Muitas vezes o aeroporto mais próximo pode não ter os recursos médicos necessários para o caso. Mesmo que o local de pouso esteja próximo, uma aeronave em altitude de cruzeiro pode levar até 30 minutos para aterrizar; às vezes manter o destino pode não representar uma diferença significante. Alguns pacientes podem não querer ser desviados, principalmente quando o destino original é a sua residência. Estatísticas mostram que apenas um terço dos pacientes são levados a um hospital e apenas 30% desses acabam internados, ou porque a sua condição não era grave ou porque recusaram atendimento. A decisão de um desvio de aeronave é tomada pelo comandante em conjunto com o despachante de vôo e com as demais pessoas envolvidas na emergência médica, como comissários, voluntário médico, médico especialista de apoio em solo, além de considerações operacionais, da angustia dos demais passageiros e do interesse da família.

Mas há algumas medidas que todos nós passageiros podemos tomar para não nos tornarmos uma emergência em vôo. O risco de desmaio aumenta com a desidratação em ambiente de baixa umidade, mudança de pressão e cansaço. Os passageiros devem ingerir líquidos com frequência, comer as refeições e lanches oferecidos durante a viagem, principalmente em vôos longos ou com múltiplas conexões Usar meias de compressão é uma boa medida preventiva contra o trombo-embolismo. Não exagerar nas bebidas alcoólicas. Passageiros com doenças crônicas devem ser orientados por seus médicos sobre os efeitos da altitude, necessidade de medicamentos e possível ocorrências de emergências médicas. Os ginecologistas costumam aconselhar não fazer vôos após 36 semanas de gravidez. Por outro lado os médicos também devem procurar se atualizar sobre condições particulares com especialistas em medicina aeroespacial, especialidade nova que evolui com a mesma velocidade supersônica das nossas aeronaves.

Dr. EDMOND BARRAS formou-se em 1973 pela Faculdade de Medicina da USP. Foi residente-estrangeiro do Hopitaux de Paris em 1976 e 1977 e médico assistente no Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris. Em 1978, fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral da Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje, além de ter participado de congressos no Brasil e exterior e ter inúmeros estudos e trabalhos publicados, sempre relacionados à coluna vertebral. É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

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