Dr. Edmond Barras - Artigo: Saudosismo

Dr. Edmond Barras - Artigo: Saudosismo

Uma grande parcela dos meus pacientes se encontram na faixa da terceira idade. Em função disso, muitos deles se lembram com muita nostalgia dos bons velhos tempos, nos quais os médicos eram diferentes dos de hoje. Naquela época, o tempo que os médicos passavam com os seus pacientes não eram limitado, nem eram sobrecarregados de trabalho, nem apressados, nem mesmo com os olhos fixos no computador. Muitos se lembram que quando solicitado, o médico passava a domicílio no mesmo dia ainda que tivesse tido uma jornada rude e longa; não deixava para o dia seguinte, nem mesmo se queixava que gostaria de encontrar seus filhos acordados ao chegar em casa. O médico era um verdadeiro “médico de família”, um pouco psicólogo, confidente, eventualmente complementando ou mesmo substituindo as funções de um sacerdote.

É verdade, muitos se queixavam que os médicos não são mais como os de antigamente. Será que essas pessoas gostariam que os médicos do século 21 se comportassem como os dos velhos tempos? Tudo bem, porém os pacientes também deveriam se comportar como os de antigamente?

Vamos analisar uma dezena de fundamentos dos velhos tempos relacionados aos pacientes. Depois disso, avaliem a opção. Os pacientes de antigamente:

01- Não perguntavam nem questionavam os seus médicos. Eles escutavam e estavam sempre de acordo.

02- Não discutiam o diagnóstico; o médico era considerado o sábio onipotente.

03- Nunca achavam que o médico era careiro. O médico não cobrava dos pobres; mas os ricos achavam normal pagar e não pediam receitas ou recibos apenas para se fazer e de um medicamento; eles jamais ousavam incomodar o médico apenas para isso.

04- Jamais se queixavam da demora na sala de espera. Não havia hora marcada; o médico atendia os seus pacientes por ordem de chegada e esperava-se o tempo que fosse necessário. Era evidente que se tivesse que esperar era porque o médico estava ocupado com um caso importante.

05- Pacientes não procuravam um serviço de emergência por qualquer motivo, porque estavam com pressa ou apenas para justificar a falta ao trabalho.

06- Não insistiam em inúmeros exames sanguíneos, tomografias e ressonâncias magnéticas apenas para ver o interior do próprio corpo. O médico de antigamente sentava em uma cadeira ao lado do paciente, fazia perguntas, o examinava e tinha uma boa avaliação da sua saúde sem muitos exames.

07- Os pacientes de antigamente raramente procuravam diretamente a um especialista.

08- Não pedia ao médico certificados, atestados, declarações para carteira de deficiente e comprar carro sem imposto. Quando realmente necessitavam, se desculpavam pelo incômodo e não exigiam que fosse feito na hora, sabendo que o médico tinha coisas mais importantes a fazer naquele momento.

09- Não esperavam resultados imediatos com os tratamentos. Os médicos de antigamente tinham resultados terapêuticos aleatórios e os pacientes sabiam; se davam por satisfeitos quando os tratamentos os melhoravam.

10- Aceitavam uma relação assimétrica: o médico tinha sempre razão e com base nisso era considerado plenamente capaz de cuidar de todos fosse qual fosse o seu caráter e o modo de se relacionar.

Pois bem, estou convicto que após examinar esses 10 quesitos os meus pacientes saudosistas certamente mudariam de ideia. Bom mesmo seria resgatar alguns bons hábitos dos médicos de antigamente e agregá-los à maneira de exercer medicina do século 21, aproveitando os enormes avanços científicos e tecnológicos que tivemos o privilégio de conseguir. Esse é um jogo no qual todos seriam ganhadores!!!

Dr. Edmond Barras formou-se em 1973 pela Faculdade de Medicina da USP. Foi residente-estrangeiro do Hopitaux de Paris em 1976 e 1977 e médico assistente no Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris. Em 1978, fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral da Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje, além de ter participado de congressos no Brasil e exterior e ter inúmeros estudos e trabalhos publicados, sempre relacionados à coluna vertebral.

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