Artigo dos Drs. Edmond Barras e Ronaldo Ramos Caiado sobre um dos maiores médicos ortopedistas de todos os tempos: Dr. Raymond Roy-Camille

Artigo dos Drs. Edmond Barras e Ronaldo Ramos Caiado sobre um dos maiores médicos ortopedistas de todos os tempos: Dr. Raymond Roy-Camille

Há exatos 25 anos, em 14 de julho, dia em que se comemora a Queda da Bastilha , ao anoitecer quando os franceses tradicionalmente se preparam para  comparecer aos tradicionais bailes nos quarteis dos corpos de bombeiros, se  extinguia na UTI do Hospital Pitié-Salpêtrière um dos grandes expoentes da se passado um quarto de século, as suas palavras e os seus ensinamentos continuam ecoando na mente dos seus discípulos, espalhados pelo mundo. Os que como nós tiveram a grande chance de conviver com o “Patron”, como era carinhosamente chamado, guardam em seu espírito um compromisso profissional exemplar perfeitamente agregado a um relacionamento familiar, como de pai para filhos. No campo da Ortopedia, a marca que o Prof. Roy-Camille deixou, revolucionou a cirurgia de coluna ao descrever a fixação pedicular, método universalmente adotado e que facilitou a vida não somente dos cirurgiões mas principalmente dos pacientes, para os quais esta técnica significou um enorme salto em questão de segurança, resultados mais eficientes e pós-operatórios menos sofridos. Mas não foi só na fixação pedicular que o Professor deixou a sua marca. Profundo conhecedor da anatomia humana (foi dele o atlas com cortes transversais do corpo humano a partir de cadáveres congelados) foi idealizador de técnicas ousadas em cirurgias de coluna vertebral. A técnica do enxerto palito para pseudartroses de odontóide, a da “lagosta”, na qual abria o canal vertebral com serra oscilante, as osteotomias de coluna em casos severos de espondilite anquilosante, a vertebrectomia total por via posterior ampliada, deixavam com “frio na espinha” quem o auxiliava nas cirurgias. Tinha a habilidade de um Michelângelo ao “esculpir” a coluna com formão e martelo, mesmo que a cada batida o nosso cabelo se arrepiava. 

Os gestos precisos e firmes eram consequência de raciocínios extremamente lógicos e objetivos. Aliás, o lema do professor era: “droit devant” (reto e em frente) e quando um de nós hesitava diante de um problema a frase era: “você deve ver o que olha e acreditar naquilo que você vê”. 

Além do aspecto profissional, os anos que convivemos ao seu lado na Pitié-Salpêtrière, ficaram marcados por um ambiente familiar extremamente caloroso, que refletia as suas origens tropicais. Nascido na Martinica, porém tendo feito os seus estudos na metrópole francesa, guardava o “savoir vivre” caribenho, adorava cantar e dançar a “biguine” com um sotaque créole invejável. O que não o impediu de cair no samba como um autêntico carioca quando nós o levamos para um show no Via Brasil, em Paris. Ainda no aspecto sócio-familiar, todos os anos os seus assistentes participavam de um dia de caça ao pato na sua propriedade na Solonha, antigo território de caça dos reis da França. Era o lado nobre! Assim como o seu apartamento em Paris que ficava a cem metros da torre Eiffel e que maravilhava os seus convidados estrangeiros ao jantar praticamente à luz da grande dama de ferro. A sua filha Julie, nascida em 1979, não seguiu a carreira do pai. Mas, por outro lado, somos dezenas de “filhos”, espalhados pelo mundo, que se hoje são o que são, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, devemos ao nosso segundo pai. 

Merci beaucoup Patron! 

Edmond Barras 

Ronaldo Ramos Caiado 

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