Dr. Edmond Barras - Os médicos devem confiar em seus pacientes

Dr. Edmond Barras - Os médicos devem confiar em seus pacientes

Dr. Edmond Barras formou-se em 1973 pela Faculdade de Medicina da USP. Foi residente-estrangeiro do Hopitaux de Paris em 1976 e 1977 e médico assistente do Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris. Em 1978, fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia de Coluna Vertebral da Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje.

Artigo:

A grande maioria dos artigos encontrados na literatura que trata sobre a confiança entre pacientes e médicos se refere ao fato dos pacientes terem confiança nos seus médicos. Na época em que o paternalismo médico era modelo dominante nos cuidados da saúde esse pensamento era lógico e imutável. O papel do paciente era confiar e seguir as orientações do seu médico. Porém, os tempos estão mudando, há um aumento do empoderamento do paciente, maior facilidade de acesso à informações, o que leva a maior necessidade de parceria entre médicos e pacientes, promovendo melhores resultados nos tratamentos. Um relatório da Academia Americana de Medicina de 2017 destacou a necessidade da decisão compartilhada, planejamento de cuidados em conjunto e envolvimento da família nos cuidados da saúde. Quando se negligenciam esses aspectos na relação médico-paciente, dificilmente se conseguirá uma confiança recíproca entre pacientes e médicos, conjuntamente com as famílias.

A confiança do médico no paciente é fundamental para que esse último cumpra as orientações e mesmo as suas expectativas e forneça informações precisas, responder a perguntas com honestidade e não ocultar fatos que podem ser relevantes. Nesse relatório também se chamou a atenção sobre o fato que pacientes tentam manipular os seus médicos para certos ganhos pessoais, tais como queixas exageradas de dores para obter prescrições de opióides. Entretanto o foco principal da pesquisa foi avaliar se os médicos confiam nos pacientes que confiam neles. Frequentemente o fato de não ouvir os pacientes de maneira adequada é a principal causa da falta de confiança. Um estudo recente envolvendo 66 clínicos gerais e especialistas mostrou que os médicos que os médicos ouviam em média os seus pacientes durante apenas onze segundos antes de interromper que esse tempo médio era de trinta segundos. Muitos médicos, começam a construir um modelo mental do problema e a criar o diagnóstico sem a contribuição dos pacientes, dispensando informações importantes que só podem ser fornecidas pelos próprios pacientes e confiando apenas nos próprios conhecimentos, experiências e habilidades. Os pacientes são especialistas nas próprias experiências e suas narrativas costumam ter grande valor diagnóstico. Confiar nos pacientes leva os médicos a diagnósticos mais precisos e a tratamento mais eficientes.

A academia Americana de Medicina define os cuidados médicos como sendo planejados, realizados, gerenciados e continuamente aprimorados em parcerias ativas com os pacientes e suas famílias. As experiências mostram que esse modelo melhora os resultados, mas depende do engajamento dos pacientes, e que contribuem de maneira significante para o seu tratamento. A confiança dos médicos no conhecimento e nas habilidades dos seus pacientes é essencial para que esses possam se envolver como parceiros. A comunicação efetiva e contínua é construída na base da confiança.

Muitos médicos podem apresentar sintomas de insatisfação profissional, desgaste, exaustão emocional e falta de empatia com os pacientes. Relações de confiança recíprocas podem ajudar o médico a recuperar a satisfação na prática da medicina e sair do pedestal imaginário da perfeição e onipotência. Quando os médicos demonstram confiança nos seus pacientes é mais provável que estes retribuam. O contrário também é verdadeiro: quando os médicos não mostram essa confiança os pacientes tendem a seguir o exemplo. Confiar nos pacientes é uma condição necessária mas não o suficiente para obter benefícios na relação médico-paciente. Igualmente importante é demonstrar explicitamente essa confiança diretamente aos seus pacientes. É muito importante prestar atenção à comunicação verbal e à linguagem corporal e fazer o paciente e a família participarem da decisão compartilhada. A manutenção da saúde e o tratamento da doença são processos colaborativos; sem eles não há sucesso e é importante que médicos e pacientes possam contar uns com os outros.

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