Dr. Edmond Barras: Uma hérnia de disco e a conquista da Lua

Dr. Edmond Barras: Uma hérnia de disco e a conquista da Lua

Muitas vezes o curso da História foi alterado em função de problemas de
saúde inesperados de certas pessoas. Em passado recente tivemos o acidente vascular cerebral de Costa e Silva que teve que ser substituído às pressas por um triunvirato e a cirurgia inesperada de Tancredo Neves na véspera da sua posse, que nunca chegou a assumir. Mas não só na política as doenças modificam os rumos.

A história da conquista da Lua foi modificada por uma hérnia de disco!!! Um dos três tripulantes da Apolo 11, que levou o primeiro homem à Lua foi Michel Collins. Mas ele não deveria fazer parte dessa tripulação. O primeiro voo espacial de Collins foi em 1966 na Gemini 10, tendo sido escalado para fazer parte da Apollo 8. Entretanto, com apenas 37 anos de idade passou a apresentar sintomas de mielopatia cervical como dormência e formigamento nas pernas e braços, quedas frequentes e dificuldade para subir escadas. Os exames detectaram uma hérnia de disco entre a quinta e sexta vértebras cervicais que estava comprimindo a sua medula espinhal. Consultou um primeiro neurocirurgião que lhe propôs uma cirurgia chamada laminectomia para descomprimir a sua medula. Os médicos da NASA achavam que esse tipo de cirurgia o afastaria definitivamente do programa espacial pois o enfraquecimento da musculatura do pescoço seria um sério risco quando submetido a forças gravitacionais importantes durante a decolagem.

Também não poderia mais atuar como piloto de caça pois o assento
ejetável poderia provocar uma luxação cervical séria. Consultou mais dois
neurocirurgiões. (A importância da segunda opinião!!!). Um deles, o Dr. Paul Myers lhe propôs uma cirurgia diferente: retirada do disco por via anterior (pelo pescoço) e colocação de um enxerto ósseo retirado da sua bacia (cirurgia de Cloward). A recuperação foi excelente e em novembro de 1986 Collins voltou a pilotar jatos. Entretanto ele foi cortado do voo da Apollo 8, tendo sido remanejado para um voo anos mais tarde, na Apollo 11. Com isso Collins entrou nos anais da História como o piloto do módulo lunar da primeira missão que levou o homem à Lua. Quem lembra de James Lowel que substituiu Collins na Apollo 8?

Pesquisas mostram que os astronautas têm uma chance 21 vezes maior
de desenvolver uma hérnia de disco cervical do que a população em geral.
Provavelmente se deve ao “stress” mecânico que a força de empuxo provoca, bem como à variação da expansão dos discos em ambiente de gravidade zero. bem como à variação da expansão dos discos em ambiente de gravidade zero.

Os astronautas dão voltas ao mundo, porém as voltas que o mundo dá são
mais curiosas e significantes. Imaginemos a frustação de Michel Collins ao ser substituído na missão da Apollo 8, missão para a qual tinha se preparado durante toda a sua vida, para anos depois ganhar a imensa notoriedade de ser um dos três astronautas a conquistarem a Lua. E tudo isso “graças” à uma hérnia de disco.

NB – essa matéria foi publicada na edição de julho de 2019 no Journal of Neurosurgery.

Dr. Edmond Barras Médico titular e chefe do Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Médico assistente no Serviço do Prof. Raymond Roy-Camille no Hospital Pitié-Salpêtrière. Em 1978 fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje. Participações em cursos, congressos e publicações. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1973. Residência Médica no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Hospital Pitié-Salpêtrière em Paris. É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

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